Vivemos o tempo das múltiplas possibilidades, onde somos apresentados a cada instante a uma variedade de estímulos, sejam eles materiais ou de ordem emocional. Nos deparamos com as limitações inerentes às situações e aos objetos desejados e consequentemente, nos tornamos alvo do sentimento de infelicidade. Não podemos ter tudo, mas já temos tudo que precisamos ter, só não nos damos conta disso. Normalmente, as pessoas procuram a psicoterapia em busca da compreensão da natureza do seu sofrimento, sentem-se insatisfeitas com algo na sua vida, confusas e com medo. Não sabem o que fazer.

Gloria Arieira, uma das maiores estudiosas do Vedanta, nos diz que o medo nasce de um desejo de como eu, o outro e todo universo devem ser para que eu possa ser feliz. E a partir desse desejo e expectativa, eu olho as situações e não tenho certeza de que tudo acontecerá conforme meus planos para o futuro. Complementa ainda que, não é o desejo pelo objeto, mas algo através do qual ela planeja ser diferente e feliz.

Desejar ser feliz, ser uma pessoa bem sucedida e estimada pelos outros, ter várias qualidades apreciáveis pelas pessoas ao redor, compõe esse cenário. E diante dele, me deparo com a possibilidade de não ser reconhecido. Do nascimento até a morte, temos que enfrentar a dor de ter que renunciar a partes que amamos, seja uma pessoa querida, um corpo que não responde mais da mesma maneira, a um estilo de vida, enfim, crescer. Em outras palavras a roda do samsara, do ciclo continuo da vida, que alterna entre momentos de felicidade e infelicidade, onde não teremos a satisfação completa. Todo ganho envolve uma perda, devemos entender como essas perdas se ligam aos nossos ganhos. Ai reside grande parte do nosso crescimento. No curso da vida temos que enfrentar nossas perdas necessárias como nos diz Judith Viorst.

            A grande saída é dar um basta nessa mente frenética que muitas vezes domina a situação. Somente neste momento, a pessoa pode tornar-se livre do aprisionamento da roda do samsara. Ter consciência de si mesmo é um dom supremo, e o que nos faz humano. A vida se manifesta com a sua grandiosidade, trazendo coisas boas e indesejáveis. Não temos controle sobre isso. O funcionamento do universo se manifesta segundo a lei de causa e efeito, o dharma, onde uma ação adequada gera um resultado adequado positivo. Mas, existe o medo dos resultados não saírem de acordo com o meu desejo. Compreender a grande ordem e que você faz parte desse todo, ajuda a eliminar o medo. Cada um de nós tem um papel fundamental na criação da própria realidade. Sabemos que a realidade não pode nos fornecer tratamento especial nem controle absoluto. Quando nos apegamos a essa ideia de controlar, nos deparamos com o medo que nossos esforços não foram suficientes para produzir o que desejamos.

            É dito que a capacidade de escolha de um individuo está na ação e não no resultado da ação. A tranquilidade interna advém da sabedoria de que não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas. Receber, sem reagir o que a vida traz. Aceitar as coisas como elas são. Podemos criar objetivos possíveis e poder modifica-los quando necessário. Adquirir maturidade emocional exige tempo e pode demorar para equilibrar sonhos com as realidades.

            Essa atitude diante da vida é o yoga, a capacidade de manter a mesma mente em qualquer que seja a situação. Finalizando com o ensinamento contido no Bhagavadgita, tomar refúgio em Ishvara, que envolve a ordem de funcionamento de todo o universo. A realidade é feita de conexões imperfeitas, e é justamente essa aparente imperfeição que diz que tudo está onde deve estar. Quando praticamos verdadeiramente o contentamento perante a vida que se apresenta, podemos compreender os sinais e aproveitarmos os ensinamentos.

 

 

Bibliografia:

ARIEIRA, G – O que é o medo? Como podemos lidar com ele à luz dos Vedas, a tradição antiga da India – Yoga Jounal, maio/junho 2015 edição 067.

__________ - Bhagavadgita. Diálogo entre Sri Krsna e Arjuna. Volume I Capitulos 1 e 2. Tradução do Sânscrito e comentários de Gloria Arieira. 1ª edição. Rio de janeiro, 2009.

VIORST, J. – Perdas Necessárias. Ed.Melhoramentos, 1986.

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